Frances McDormand e a curva em Hollywood

Desde outubro de 2017 Hollywood está presenciando uma série de mudanças sem precedente. Após as inúmeras acusações em cima do produtor Harvey Weinstein e o surgimento de movimentos como #metoo e Time’s Up, a indústria do cinema mais e mais se vê obrigada a abraçar essas mudanças. É isso ou estagnar.

Antes mesmo da troca de envelopes que consagrou Moonlight como vencedor de Melhor Filme, a Academia (como é popularmente conhecida a organização do Oscar) já havia enfrentado o movimento #oscarsowhite em 2015 e, com isso, decidiu que era hora de implementar mudanças. Foram enviados mais convites aumentando assim tanto o número de votantes do sexo feminino como também de outras etnias e nacionalidades. Agora, pode-se dizer que existe um certo equilíbrio nos membros da Academia e que isso refletiu nos indicados da 90ª edição deste ano.

Entretanto, todas as novidades previstas para a Academia devem ser implementadas até o ano de 2020. Até lá, nada disso deve ser visto como suficiente, mas sim necessário. Ao menos até que todo esse processo seja algo natural e não uma exigência ou imposição externa. O que deve demorar um pouco, afinal, mentes são mais difíceis de moldar e sabemos que dentro e fora de Hollywood ainda permanece alguns pensamentos arcaicos. E o que Frances McDormand tem a ver com isso? Bem… tudo.

A atriz que se formou em artes cênicas em Yale em 1982 sempre foi adepta dos papéis mais inusitados, aqueles que parecem se adequar mais a sua personalidade fora das telas. Começou a ser notada no final da década de 80 por papéis como Dot em Arizona Nunca Mais, onde atuou ao lado de Nicolas Cage e Holly Hunter, sua colega de faculdade. Pouco tempo depois teve seu primeiro reconhecimento no Oscar ao ser indicada a Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em Mississippi em Chamas. Desde então, Frances escolhe a dedo os papéis que podem incomodar e fazer o público pensar. Aquele que vai transmitir algo.

Nunca foi escalada para viver a mocinha ou a jovem indefesa. Não que haja algo errado com esse tipo de papel, mas se tratando de Frances, ela prefere o não convencional. Gosta de ser diferente, de ir além da curva e conseguiu demonstrar isso muito bem com Mildred em Três Anúncios Para um Crime.

O longa de Martin McDonagh incomoda por diferentes aspectos e faz com que o público crie um diálogo sobre uma série de temas, entre eles descaso da polícia, racismo e privilégios. Mildred se confunde com Frances e fica a dúvida onde começa uma e termina a outra. Talvez por isso mesmo tenha abocanhado tantas estatuetas desde o início da temporada de premiações. E agora com o Oscar em mãos, seu discurso teve outro impacto. Ao ser aplaudida pelos presentes, ela teve uma atitude que poucos iriam pensar e pediu a todas as mulheres indicadas em diversas categorias que se levantassem e assim todos pudessem ter uma noção, não apenas de quem são essas mulheres, mas quantas elas são. Bem poucas.

Estima-se que apenas 11% de toda e qualquer produção hollywoodiana tenha mulheres envolvidas em posições de destaque. Sejam elas diretoras, produtoras, roteiristas, diretoras de fotografia e outros. São essas mesmas mulheres que ficaram de pé e que possuem projetos engavetados ou ótimas ideias e que precisam de financiamento e apoio das distribuidoras. Porque o tal conceito retrógrado que tanto foi perpetuado que filmes dirigidos por mulheres, com mulheres, sobre e para mulheres não vende, já caiu. Foi derrubado com a bilheteria e o sucesso de Mulher-Maravilha.

Pensando nisso que Frances cita algo o qual foi questionada posteriormente e que muito tem a ver com o que foi dito no início do texto sobre obrigação e imposição: trata-se de “inclusion rider”. O que significa?

Bem, como explicou em sua entrevista nos bastidores, a atriz disse que só aprendeu sobre inclusion rider uma semana antes da premiação e que é algo que sempre esteve disponível, mas, estranhamente, pouco se falou sobre. Significa que no ato da negociação de um contrato para um filme ou qualquer projeto, o ator/atriz pode exigir/requerer que pelo menos 50% do elenco e equipe daquele projeto seja diversificado. Conclui dizendo que ao aprender isso, depois de 35 anos trabalhando na indústria, é algo que não tem mais volta.

“Toda essa ideia de mulheres no trending topics? Não. Sem trending topics. Afro-americanos no trending topics? Não. Sem trending topics. Isso muda agora e acho que inclusion rider vai ter muito a ver com isso.”

Quando questionada sobre os eventos de outubro e como ela vê as mudanças, McDormand é categórica ao falar que não acha que esse tenha sido o ponto de virada, mas sim desde o instante que Moonlight ganhou como Melhor Filme e ela está certa. A partir daí abriu-se precedente para conversas e questionamentos que continuam até hoje.

Frances McDormand é uma daquelas atrizes que só aparece quando quer, como a própria diz, e que deixam a sua marca na temporada. Para ela a curva começou com Moonlight, cresceu muito no Globo de Ouro e só tende a subir e continuar mudando. E ela foi uma das responsáveis por impulsionar essa curva em Hollywood.

Melissa Andrade

Jornalista, Crítica de Cinema há mais de 10 anos, Podcaster, extremamente curiosa, com incontáveis pequenos conhecimentos em diversas áreas e Marvete com orgulho!

One thought on “Frances McDormand e a curva em Hollywood

  • 6 de março de 2018 em 01:52
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    adorei o texto <3 o discurso foi incrível, preciso ver os outros filmes dessa mulher!!!!!

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