“Green Book – O Guia” é meio problemático

Green Book – O Guia tem como base dois fatores históricos. O primeiro é o livro que leva o título do filme. Nele os negros americanos sabiam exatamente que rotas podiam pegar e em quais hotéis era seguro se hospedar. O segundo fato é a amizade inusitada entre o italiano Tony Vallelonga e o músico Dr. Don Shirley. Após uma viagem de carro, ambos acabam mudando seus conceitos e preconceitos sobre o outro.

O longa possui um ritmo constante, uma fotografia que impressiona e de pouco em pouco constrói os dois personagens. Tony é um típico ítalo-americano. Fala alto, gesticula bastante, aprecia uma uma boa comida e ama passar tempo com a família. Trabalha como segurança para garantir o sustento da esposa e filhos. Mas, como a grande maioria dos americanos da época, é racista. Viggo Mortensen faz o tipo bonachão que mesmo deslizando em atitudes preconceituosas, acaba por conquistar o espectador.

Do outro lado, temos o excêntrico Dr. Don Shirley. Um pianista excepcional que optou por fazer essa viagem para o Sul dos Estados Unidos a fim de mostrar toda a sua genialidade musical. De início os dois não se entendem muito bem. Dois opostos que não tem interesse em se atrair e é por isso que Green Book – O Guia acaba tendo um apelo tão grande para o público. Afinal, quem é que não gosta de uma boa história de aprendizado e superação?

A cada estado visitado, os dois vão curtindo mais e mais a companhia um do outro e aprendendo sobre o companheiro de viagem. E é quando as coisas começam a ficar problemáticas.

Dr. Don Shirley é um homem negro, excêntrico, inteligente, de poucas palavras e que tem (na época) uma posição privilegiada. Ora, ele mora em cima do Carnegie Hall. Todavia, o longa dá a entender que é Tony quem lhe ensina sobre o que é ser negro nos Estados Unidos da década de 60. Usando de uma metodologia quase que didática, Tony ensina a Don sobre música feita por afro-americanos, o que eles comem e até como se portar. É quase como se o pianista não soubesse agir dentro da própria pele. E o motorista branco vem como um salvador para lhe resgatar. Além do mais, há cenas que não fazem o menor sentido e que colocam Don numa posição de completa estupidez. O que ele certamente não era.

Ainda assim, Green Book – O Guia vai agradar ao público por ser um road movie e com uma trama que visa passar certos ensinamentos sobre preconceito e racismo. O que acredito ser o intuito do filme. As atuações de Viggo e Mahershala contribuem bastante para tal. Os dois certamente se dedicaram muito na construção dessa amizade o que a torna crível a ponto de cativar o espectador. Uma pena que Green Book – O Guia só retrate o ponto de vista do personagem de Tony e não como Dr. Don Shirley viveu essa mesma aventura.

Ficha Técnica
Diretor: Peter Farrelly 
Roteiro: Nick Vallelonga, Brian Currie 
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini, Sebastian Maniscalco, Dimiter D. Marinov, Mike Hatton, P.J. Byrne, Joe Cortese, Maggie Nixon, Von Lewis, Jon Sortland, Don Stark, Anthony Mangano, Paul Sloan, Quinn Duffy
Duração: 2h10min 
Estreia: 24 de janeiro

A busca por vingança em “O Peso do Passado”

O Peso do Passado, de Karyn Kusama, é um filme policial sem pretensões de seguir o gênero ao pé da letra. O longa acompanha a vida da detetive Erin Bell (Nicole Kidman), que após receber pistas de uma antiga missão fracassada, resolve fazer um acerto de contas com seu passado.

Nele, ela foi designada a uma missão infiltrada com o agente Chris (Sebastian Stan) para obter provas contra Silas (Toby Kebbell), um ladrão de bancos, que o leve a prisão. Entretanto, no meio da missão, Erin e Chris se encontram com uma decisão em mãos que pode pôr em risco seus disfarces e acima de tudo, a moral de ambos. E é assim,  alternando entre o passado e presente de Erin, que o filme segue a caçada dela contra Silas.

Desde o material de divulgação, já era possível sentir que Nicole Kidman brilharia mais uma vez. Nesse filme, não foi diferente. A atriz convence desde os primeiros segundos em O Peso do Passado graças a uma particularidade que fez toda diferença: o seu olhar. Com ele, Kidman estabelece uma personagem determinada a cumprir sua missão a qualquer custo. Mas também, deixa claro o quão quebrada aquela mulher está por dentro. Ódio, culpa e preocupação fluem através de Erin seja surrando alguém, se preocupando com a filha ou a culpa que a consome toda vez que alguém cita a missão fracassada dezesseis anos antes. Toda a junção de detalhes representados pela a atriz, só reforçam uma frase em determinado momento do filme: “Eu não ligo para o que vier a acontecer comigo”.

Outro ator que merece destaque é Sebastian Stan, que parece ter sido escolhido a dedo para o papel. Sua dedicação, mesmo que em poucas cenas, de apresentar Chris ao público e fazê-lo entender sua dinâmica com Erin, é poderosa. Dessa forma, Stan é considerado um dos pilares do filme, sendo uma ponte para que o público compreenda a protagonista. Junto de Kidman o ator contracena ótimas cenas, com um grande destaque para os momentos finais, onde é transmitido com clareza a consolidação da química entre os dois.

Por conta da escolha do roteiro em se dividir entre os flashbacks da missão e a busca por vingança, a protagonista instiga quem a assiste. Assim, o enredo funciona como um quebra-cabeças, montado aos poucos o passado e presente. No entanto, apesar do roteiro ser envolvente, ele claramente deixa dezenas de pontas soltas. Entre elas, a carência de desenvolvimento sobre os ladrões, principalmente em relação a Silas. O personagem de Toby Kebbell é vendido como um monstro, o que não condiz com a versão apresentada para o público. Seu visual, piora ainda mais a situação por não passar firmeza. Sendo assim, é difícil compreender parte do ódio de Erin por ele mesmo contando com a perda emocional que a personagem sofre.

Em suma, O Peso do Passado é um grande filme se for levado em conta apenas a atuação de Nicole Kidman e a escolha de transmissão da narrativa. Porém, o longa se ausenta em dar uma importância básica a praticamente todos os personagens secundários, com exceção apenas para Chris. Sendo assim, acaba perdendo a oportunidade de fazer justiça ao tal peso do passado carregado por Erin.

Ficha Técnica
Direção: Karyn Kusama
Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi
Elenco: Nicole Kidman, Sebastian Stan, Toby Kebbell, Tatiana Maslany, Scoot McNairy,  Bradley Whitford, James Jordan, Zach Villa, Jade Pettyjohn, Shamier Anderson, Zach Villa, Natalia Cordova-Buckley, Colby French, Kelvin Han Yee
Duração: 2h1min 
Estreia: 17 de janeiro

“A Rota Selvagem” – O que resta quando se perde tudo?

A Rota Selvagem é um drama que conta a história de Charley (Charlie Plummer), um garoto de 16 anos que acabou de se mudar para Portland.

Filho de um pai problemático e alcoólatra (Travis Fimmel), Charley consegue um emprego com Del Montgomery (Steve Buscemi), um criador de cavalos de corrida, onde começa a se apegar ao cavalo Lean On Pete. O cavalo já com 5 anos, está próximo de ser aposentado devido a um problema nas patas.

Após a morte de seu pai, a única coisa que resta ao garoto é sua amizade com Lean On Pete, e uma tia com quem perdeu o contato à muitos anos. Ao descobrir que os cavalos aposentados são sacrificados, Charley em um ato desesperado, foge levando Lean On Pete, em busca de encontrar sua tia. Será que o garoto estará preparado para todas as adversidades que irá enfrentar sem dinheiro e viajando com um cavalo?

Um drama arrastado

A Rota Selvagem tem uma poesia própria em cima de todo o drama. É um filme bonito e com uma fotografia bem trabalhada.

O filme começa em um ritmo bom, até o momento em que o rapaz foge com o cavalo. Depois disso o filme se arrasta, tomando um ritmo lento, e parece que não rende. Tinha tudo para ser melhor, mas pecou um pouco na execução. Dramas já tendem a ser lentos normalmente, porém, a metade final parece ter o dobro da primeira devido à isso. A lentidão pode ter sido uma tentativa de imersão sensorial para quem assiste, mas ao invés de trazer a angústia que o personagem sente, chateia o espectador. Não dá para dizer que não causa um incomodo, mas acredito que não era esse o foco.

Em questão estrutural de personagem, a ausência de melhora nos mesmos incomoda. E a constante piora do protagonista faz com que o filme pareça não ter um rumo, o que estende ainda mais essa sensação de lentidão.

Achei que a escolha do nome no Brasil tirou parte do poder do nome original, que é Lean on Pete. O nome do cavalo, significa “Conte com Pete”, que é o que acaba sustentando o protagonista em sua jornada. Quando Charley perde tudo, se apoia por completo na figura do cavalo, o seu único amigo. E isso dá todo um sentido especial para o título.

*Sessão de “a rota selvagem” no Festival do Rio – 11/11 às 19h no Kinoplex São Luiz
Ficha Técnica
Diretor: Andrew Haigh 
Roteiro: Andrew Haigh, Willy Vlautin (livro) 
Elenco: Charlie Plummer, Amy Seimetz, Travis Fimmel, Steve Buscemi, Jason Beem, Tolo Tuiele, Ayanna Berkshire, Connor Brenes, Kurt Conroyd, Chloe Sevigny, Dennis Fitzpatrick, Rusty Tennant, Julia Prud'homme, Jason Rouse, Lewis Pulllman 
Duração: 2h1min 
Estreia oficial: 15 de novembro

“Hereditário” não é o que parece

Ao classificar um filme dentro do gênero terror, é inevitável que alguns clichês surjam na cabeça do público. Só que isso não quer dizer que tais expectativas precisam ser atendidas. E é nessa linha que segue o enredo de Hereditário.

De cara o longa começa confundindo a cabeça do espectador. A primeira cena oscila entre o real e o fantasioso ao misturar o trabalho da protagonista com os personagens. Annie é a matriarca e responsável por recriar cenas com riqueza de detalhes em maquetes.

Logo, todo o cenário, que foca principalmente na casa da família, parece algo construído por Annie. O que é proposital. O set foi feito para parecer um diorama – uma representação tridimensional de cenas da vida real. Assim o espectador passa a se questionar sobre a veracidade dos acontecimentos. Se são mesmo reais ou frutos de alguma outra coisa. Hereditário aposta nessa constante dúvida, como também em surpresas.

Nem de longe dá para prever o que vai acontecer no filme. A princípio parece que se trata de um espírito vingativo, tendo em vista que o longa começa com o falecimento da mãe de Annie. Não demora muito a ideia é descartada. O que leva o espectador a se questionar sobre o significado do título.

Tal questionamento nos leva a duas possibilidades: a primeira de ser algo sobrenatural e a segunda de ser psicológico. Mas, qual é a verdadeira?

Hereditário não é o que parece, pois opta por fugir do padrão daquilo que é esperado em filmes do gênero. Contudo, ainda se mantém como sendo um filme de terror, mas por suas próprias razões. E tal feito deve-se tanto a forma que o cenário foi construído, como também a atuação singular de Toni Collette. Num elenco reduzido é ela quem tem todo o destaque, entregando reações genuínas e plantando dúvidas na cabeça do espectador. O que acaba por prender a atenção do início ao fim do filme. Porém, o ritmo é vagaroso para que se preste atenção nos detalhes em cada cena a fim de que seja possível desvendar o mistério sobre o que de fato foi herdado nessa família.

Ficha Técnica
Diretor: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster 
Elenco: Toni Collette, Alex Wolff, Gabriel Byrne, Milly Shapiro, Ann Dowd, Mallory Bechtel 
Duração: 2h7min 
Estreia: 21 Junho

Jackie Chan mostra outro lado em “O Estrangeiro”

Quem assiste aos filmes do Jackie Chan pode se impressionar com sua atuação em O Estrangeiro. O ator que é sempre conhecido por trazer um sorriso no rosto, está taciturno e sombrio nesta produção. E sem sorrisos.

Por vezes alguns atores fazem tanto sucesso em certos papéis que acabam estagnando. Não recebem outras oportunidades e continuam nessa zona de segurança. Jackie Chan é um desses exemplos. O ator se acostumou a fazer filmes de comédia e inserir nela suas habilidades em artes marciais. Entretanto, nunca foi além disso. Na verdade começou a escolher títulos duvidosos (como aquele filme com o Johnny Knoxville) e alguns diziam que a carreira de Jackie Chan estava próxima do fim.

Bem, seu papel como Quan em O Estrangeiro mostra o contrário. Que como dito acima, tudo o que Chan precisava era de uma oportunidade e não a desperdiça. Ele surpreende.

No longa dirigido por Martin Campbell e com roteiro de David Marconi – e baseado num livro – Quan é um pai determinado a encontrar os culpados pela morte de sua filha, vítima de um atentado terrorista. Tudo indica que os autores da bomba tem conexão com o IRA [Irish Republican Army um movimento paramilitar Irlandês que acredita que a Irlanda deve ser uma república independente]. Tal grupo é conhecido por ter sido bastante violento no passado, porém, graças ao seu vice-ministro Liam Hennessy vivido por Pierce Brosnan, eles agora gozam de uma boa aliança com o governo britânico.

Acontece que nem todos dentro do IRA concordam com essa aliança. O que coloca o Hennessy numa posição delicada, em especial quando Quan decide que ele sabe mais do que alega.

O Estrangeiro é um filme de ação que também mistura drama e se sustenta na atuação de Jackie Chan. Suas expressões de amargura e desgosto é o que prende o espectador para acompanhar o desenrolar da trama que tem pequenos problemas. Fato que a ação em si demora para acontecer, pois é preciso desenvolver primeiro a motivação e parte do passado de Quan para tal. Mas quando acontece, não desaponta. E em nada se parece com os outros filmes do ator no qual ele luta.

Aqui Jackie faz uso de sua idade avançada como recurso inteligente. Não quer lutar. Não quer correr atrás desses homens. Mas é necessário para obter respostas. E como isso não é algo que ele quer, mas sente obrigado a agir, suas lutas são de pura defesa e nada planejadas. Há tropeços, manobras que não dão certo e um constante olhar por cima do ombro. Se machuca inúmeras vezes, precisa fugir outras, mas continua sempre em frente. Entra em modo invisível e coloca todas suas habilidades na mesa. E é quando a trama começa a tropeçar também.

Salvo a atuação de Jackie Chan e o seu arco, o resto da trama meio que anda na corda bamba. Brosnan tem uma atuação pontual como ex-líder de uma organização violenta mas que ainda detém os costumes da época; só que toda a história que o envolve parece construída de qualquer jeito. O desfecho é dado sem um desenvolvimento maior e fica por isso mesmo. Quando nos damos conta, os créditos estão subindo na tela.

O Estrangeiro veio para mostrar que tudo o que alguns atores precisam é de uma oportunidade. Isso já aconteceu com Liam Neeson, Keanu Reeves e até mesmo Arnold Schwarzenegger. Era mais do que hora de Jackie Chan mostrar um outro lado como ator: o dramático. E não decepciona.

Ficha Técnica
Diretor: Martin Campbell 
Roteiro: David Marconi
Elenco: Jackie Chan, Katie Leung, Rufus Jones, Mark Tandy, Caolan Byrne, Aaron Monaghan, Niall McNamee, Pierce Brosnan, Charlie Murphy, Orla Brady, Lia Williams, Michael Elhatton, David Pearse 
Duração: 1h53min